13.5.08

poemas que dormem na estante XVIII

Aproveitando o tema da mentira, abordado no poema anterior do Boaventura em sua Escrita INKZ, divulgo um pedido do poeta Affonso Romano de Sant´ Anna, que teve o seu poema A Implosão da Mentira divulgado pela Internet de forma incompleta. Seguem as palavras deste grande poeta ...

"AMIGOS:

em tempos de " apropriação" e malversação da obra alheia, circula na internet e no youtube uma versão pobre e estropiada do poema meu A IMPLOSÃO DA MENTIRA, publicado originalmente durante a última ditadura militar. Peço aos amigos que contra ataquem em seus blogs, sites e toda forma eletrônica de comunicação divulgando essa verdade textual.

Em tempo: cuidado com os que dizem que a verdade não existe e que é arte qualquer coisa que qualquer um chama de arte. É mais uma mentira a ser ex/implodida."

Grato pela divulgação, Affonso Romano de Sant’ Anna.

A Implosão da Mentira
Affonso Romano de Sant’ Anna

Fragmento 1

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

Fragmento 2

Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial? mente,
mente partidária? mente,
mente incivil? mente,
mente tropical?mente,
mente incontinente?mente,
mente hereditária?mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constróem um país
de mentira
-diária/mente.


Fragmento 3

Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.
mas o tribunal que o julga
herege/mente.
Mentem como se Colombo partin-
do do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percuso.

Fragmento 4

Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.
Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.

Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.


Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.

Fragmento 5

Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.


(Poema publicado no JB em 1984, quando do episódio do Rio Centro e em diversas antologias do autor. Está em “ Poesia Reunida” L&PM, v.2)

11.5.08

Boaventura de Sousa Santos e a Escrita INKZ – anti-manifesto para uma arte incapaz (II)

As medidas humanas
têm algo de errado de origem
Desemedem-se com frequência

Ninguém se ocupa deste desespero
Mas sei que existe
Quando se senta num banco de jardim

Chega a casa mente passa adiante
Chega à cama mente adormece
Levanta-se mente desaparece
Não se imagina um cão
Mentir com tanta consistência

Boaventura de Sousa Santos, pg. 23, no livro A Escrita INKZ – anti-manifesto para uma arte incapaz, Editora Aeroplano.

1.5.08

Boaventura de Sousa Santos e a Escrita INKZ – anti-manifesto para uma arte incapaz

Esta postagem não é um poema inédito, nem uma canção que toca no meu rádio, nem um poema que dorme na estante, nem recortes do antigo blog algumas pegadas.

Esta postagem foi uma forma que encontrei de explodir ao mundo uma leitura que tem me acompanhado nas últimas semanas, a Escrita INKZ – anti-manifesto para uma arte incapaz, do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. Um livro de poesias? Um livro de prosas? Ou um livro de indagações perante a condição cada vez mais precária do ser humano no mundo? Apenas uma arte incapaz coloca Boaventura. Estará a nossa geração cometendo os mesmos erros de nossos pais e avós e produzindo uma arte totalmente incapaz? Eu, sinceramente, acredito que vale dar uma parada em todas as engrenagens e olharmos um pouco ao nosso redor e refletir.

( pequena pausa diante à possibilidade de cada um )

Bem ... seguem trechos do Desfácio desta obra interessantíssima. Em breve postarei dela alguns poemas-latidos.

A minha geração não produziu nada de novo no domínio das artes. Isto não seria um grande problema se ela tivesse sabido usar produtivamente a sua esterilidade. Mas não foi o caso. Podia ter propiciado um novo encontro entre a arte e a vida. Devolver a arte a quem a trabalha quando trabalha. Mas tal não foi possível porque há páginas literárias, salas de concerto, departamentos de arte e de literatura, prêmios, galerias. A minha geração ficou assim condenada a celebrar a sua própria esterilidade e a usá-la para consumo interno. Por isso, já vimos tudo e, sobretudo, o déjà vu. Só não vimos artistas prontos a morrer. A minha geração não conheceu ninguém desse calibre. Em vez de morte, o cansaço. A minha geração foi feita de gente-cansaço, família-cansaço, sexo-cansaço, whisky-cansaço. Cansámos-nos para fugir ao imperativo da arte. Por fim, cansámo-nos para esquecer o cansaço. (...)

A Escrita INKZ não é poesia nem é prosa, não é pintura nem escultura, nem arquitectura. É uma arte incapaz. Não se sustenta nem se completa por si própria. Abre espaços para as manifestações artísticas dos outros, sejam eles artistas legais ou indocumentados, formais ou informais, oficiais, ou não-oficiais. (...)

A Escrita INKZ é incondicionalmente realista e a realidade que descreve pode ser pertubadora. Cada título ou estrofe é o princípio ou o fim de uma narrativa pessoal que cada leitor deverá imaginar e construir artisticamente. Porque o novo milênio ainda não conseguiu treinar a população em geral para este tipo de construção, há que ler e imaginar devagar. A Escrita INKZ é um medicamento escrito que deve ser consumido em doses individuais, segundo recomendações do próprio leitor. (...)

A Escrita INKZ é um conjunto de histórias rápidas e curtas para deixar espaço à imaginação artística de quem lê. (...)

A Escrita INKZ é uma arte incapaz porque só existe sob a forma de ausência ou emergência. A Escrita INKZ é uma ekfrase de tipo novo. A ekfrase é o termo de teoria literária para significar a descrição de uma obra de arte dentro de outra obra de arte. Por exemplo, um poema que descreve uma pintura. No caso da Escrita INKZ, a descrição é meramente potencial porque a obra de arte tem de estar ausente para que os leitores comuns e incomuns criem sobre ela as suas obras de arte. (...)

A Escrita INKZ parte da idéia que a subjectividade do novo milênio é constituída por seis mónadas: figura, cidade, andamento, momento, mulher nua e orador-nionguém. São o contrário dos heterônimos já que estão sempre presentes sob diferentes formas em tudo o que somos e, portanto, em toda a arte de que todos somos capazes. Todos somos figura, cidade, andamento, momento, mulher-nua e orador-ninguém. Cada um à sua maneira e segundo o tempo e o lugar. (...)

Além das seis mónadas, somos uma outra mónada, a mónada-cão. A mónada-cão é uma mónada muito especial porque não tem autonomia em relação às outras mónadas. A sua especificidade é ser a voz autônoma e livre das outras mónadas. Ou seja, cada mónada tem uma mónada-cão. Ao contrário do que pensava Leibniz, as mónadas não são entidades sem janelas. Têm janelas e essa janela é a mónada-cão.”

Boaventura de Sousa Santos no Desfácio do livro Escrita INKZ anti-manifesto para uma arte incapaz, págs. 11-17, Editora Aeroplano.

Observação:
Foram mantidas as normas e grafias de Portugal no recorte do livro.

Vocabulário :
Mónada: 1. Biol. Organismo ou unidade orgânica diminuta e muito simples. 2. Filos. Segundo Leibniz (v. leibniziano), cada uma das substâncias simples e de número infinito, de natureza psíquica (dotada de apercepção e apetição), e que não têm qualquer relação umas com as outras, que se agregam harmoniosamente por predeterminação da divindade, constituindo as coisas de que a natureza se compõe; enteléquia.

Enteléquia: Filos. 1. Segundo Aristóteles (v. aristotelismo), o resultado ou a plenitude ou a perfeição de uma transformação ou de uma criação, em oposição ao processo de que resulta tal criação ou transformação.
2. A forma ou a razão que determinam a transformação ou a criação de um ser.
3. Mônada (2).

Fonte: Dicionário Aurélio Eletrônico - Século XXI

19.4.08

inéditos XX

Sobre os rumos poéticos

Quando me arrisquei poeta
desconhecia quantos éramos.

Hoje eu sei que somos muitos
incontáveis as tantas estrelas.

Bradei por aí minhas palavras
e por vezes me recolhi
para lapidar minha lavra.

Nos livros
amadureci a riqueza dos versos
e reconheci que este aprender
não terá fim, será eterno.

Nas ruas, bares,
festivais e espaços culturais
dei vida a muitos poemas
e nestes momentos me senti completo.

E diante a incompletude da vida
sempre busquei sobreviver por outros meios.

A poesia seria meu presente à humanidade.

Até tentei as revistas, os jornais,
alguns catedráticos literários,
alguns poetas marginais,
a cara a tapa nos recitais,
na busca da crítica que me fizesse crescer,
ou do reconhecimento que me permitisse aparecer.

Mas conclui que já estavam comprados
todos os espaços dos jornais.

Há um momento
em que se apaga o sonho de viver da arte.

Mas a arte não se apaga de dentro de você
e vamos sonhando enquanto vivemos.
Amadurecendo nossa essência a cada dia.

Isso sim é viver poesia.

Pousar o verso num espaço livre.

Recitar um poema por prazer
e com um único compromisso:

iluminar o leitor.

Não precisar mais do mercado,
do parecer positivo de doutores letrados,
nem de eventos oba-oba e conchavos.

Ser apenas se inspirar
e deixar-se ser inspirado.

Ser para o desconhecido leitor
um punho ou uma flor.

Arma branca com a qual
ele possa reinventar sua história.

E fazer do seu momento pessoal
de luta, amor ou solidão...

Um momento universal.

(Rodolfo Muanis, Abril de 2008)

15.4.08

inéditos XIX

Carmenère Luiz Persona - Casa Valduga
Safra 2002 - Garrafa nº 2.498

Tua personalidade única
Tua cor rubi profunda
Com reflexos de púrpura

Tens notas de chocolate
Resquícios das especiarias
Que as naus buscavam no além mar

Tens taninos equilibrados
Na boca sabor de um beijo rosado
Daqueles que nos fazem sonhar

Corpo intenso e aveludado

Orgasmo nos lábios

(Rodolfo Muanis, Outubro de 2005)

10.4.08

inéditos XVIII

Ao sabor dos teus beijos

IV – Chardonnay Callia

na Madrugada que passou
inegável é o fato
de que domamos a tempestade
força do amor ou da vontade?

talvez tenha sido
o Chardonnay Callia em teus lábios

con collor amarillo intenso
y tus destellos verdosos
y tu aroma complejo
intensamente frutado
con bananas maduras
almendras tostadas,
duraznos y miel.


pleno e amplo em tua boca
trazendo aos nossos beijos
sabores frutados de abacaxi e pêra.

e eis que surge uma estrela
para eu fazer um pedido
que tenha certeza foi por nós dois

e depois,

posso dizer que aqueles fogos
explodindo sem nexo e sozinhos
eram os nossos corações
acionando os pavios de tantos carinhos.


(Rodolfo Muanis, Janeiro de 2008)

8.4.08

inéditos XVII

Ao sabor dos teus beijos

III – Ancelota / Tannat – Cave de Pedra Gran Reserva

a Urca de tantas batalhas esquecidas
com seus canhões adormecidos
enferrujando as histórias

a Urca de agora, amor inesquecível
nas areias a paixão acesa na memória

estrelas tantas, lua cheia, as marés
teus beijos, laços e abraços
e tantos carinhosos cafunés

és intensa, rubi profundo, límpida e cristalina
tens aroma de café e chocolate branco
amadurecendo em teus lábios
e equilibrando teu cassis

com mais um pouco viraríamos um cometa
entrelaçando corpos num universo sideral

chove o orvalho dos coqueiros
parecem saber de nossos desejos
da noite finda e o já anúncio da aurora

e descobrimos o encaixe perfeito
para nossa paixão ganhar duas rodas


(Rodolfo Muanis, Janeiro de 2008)

5.4.08

inéditos XVI

Ao sabor dos teus beijos

II – Um Bom Merlot Chileno

às margens da Lagoa Rodrigo de Feitas
amadureceu em teu buquê uma noite perfeita
palavras são as tuas verdadeiras luzes
que incendeia meu olhar sobre as águas

decifrá-la talvez nem o vinho
que em tantas noites a tem por inteira
decifrá-la talvez nem o poeta
que em tantas noites a tem faceira

brindar tua companhia em taças
arriscar um bom Merlot chileno
e após ganhar tão saboroso beijo
apagar a dúvida de não poder ser pleno

na noite és a senhorita a Catedral
imponente e bela com tuas torres e vitrais
tocando os sinos de alegria da noite de Natal
ao presentear-me com beijos tão sensuais


(Rodolfo Muanis, Janeiro de 2008)

2.4.08

inéditos XV

Ao sabor dos teus beijos

I – La Linda

na primeira noite
aquele Malbec argentino
coloriu tua boca com seus taninos

e o desejo
de senti-lo na flor de teus lábios
aflorou em minhas folhas o orvalho

e mesmo modesto conhecedor
da nobre ciência da enologia
deixei envelhecer o desejo

para mais tarde provar em teus cálices
o sabor maduro daquele lampejo
trazendo no vinho um beijo e poesia


(Rodolfo Muanis, Janeiro de 2008)

31.3.08

inéditos XIV

Brejo da Cruz

Porque nela
a emoção me invade
ao olhar a cidade
e ver muitos homens
com seus dias duros
sua vidas sofridas
e me lembrar
que um dia foram todos
meninos

correndo pelo Brejo da Cruz
se alimentando de luz

Ao ouví-la
retomo a vontade adolescente
de mudar o mundo
de fazer dos meus atos
sementes de dias melhores
para que não endureçam
os corações dos homens
e estes não se esqueçam
que eram meninos

correndo pelo Brejo da Cruz
se alimentando de luz


(Rodolfo Muanis, Dezembro de 2006)
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A história deste poema é a seguinte. Aconteceu uma promoção do jornal O Globo, na qual alguns leitores que respondessem à pergunta: Qual é a música do Chico Buarque que você mais gosta? e Por quê? ganhavam um par de ingressos para o show de estréia da turnê Carioca do Chico Buarque no Canecão aqui no Rio de Janeiro. E com o poema acima eu fui um dos felizardos a ganhar o brinde. Tem horas que a poesia serve para alguma coisa né. : ) É que hoje dando uma organizada nas coisas por aqui achei este poema e resolvi publicá-lo.

14.3.08

poemas que dormem na estante XVII

Versos para a Patrícia

1. Ilha

Tenho a sede das ilhas
e esquece-me ser terra

Meu amor, aconchega-me
meu amor, mareja-me

Depois, não
me ensines a estrada.

A intenção da água é o mar
a intenção de mim és tu.

Mia Couto, no livro Raiz de Orvalho e Outros Poemas, pg. 90, Editora Caminho.

12.3.08

inéditos XII

Pouso por instrumentos

Iluminado
apenas pelo risco da lua
me arrisco
na busca dos teus contornos.

Se aparece uma estrela
ela logo me pede um pedido
e no silêncio da noite recito
palavras de amor para nós dois.

Sigo na penumbra
buscando as pétalas nuas
as mãos suaves são duas voyagers
a desvendar teus universos.

E logo o firmamento todo se abre
clareando os meus caminhos.

Então disparo desejos
para todas as luzes que vejo
e aterrizo meu corpo com os lábios
bem no centro dos teus beijos.

(Rodolfo Muanis, Janeiro de 2008)

8.3.08

poemas que dormem na estante XVI

singela homenagem para todos os dias

mágicas e delicadas
as curvas, os perfumes, os sorrisos
repletas de azul, verde, vermelho, branco, amarelo
florescendo vida em seus ventres maternos

dos seus seios brota o leite
que dará força aos filhos, filhas e homens

sem o poder de suas varinhas
seríamos apenas nada

só as mulheres podem ser fadas


Rodolfo Muanis, no Livro, Poetas do Brasil Vol. 5 - pg. 242
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Este poema, dedicado a estas criaturas mágicas que são as mulheres é a minha homenagem às flores que merecem de nós todos os dias deste planeta. Foi publicado na Antologia Poetas do Brasil - Vol. 5 de 2007, que reúne diversos poetas que participam do Congresso Brasileiro de Poesia que acontece todo ano na cidade de Bento Gonçalves no sul do Brasil. Eu estou lá com alguns versos inéditos.

Ainda tenho alguns exemplares comigo deste livro belíssimo. Os interessados mandem um e-mail que fazemos negócios.

Abraços!

1.3.08

inéditos XI

Poesia do Olhar
para Sérgio Fonseca e os 443 anos deste Rio de Janeiro

Uma cidade se faz bela
pelos seus poetas.

Estes seres invisíveis
que a atravessam durante o dia ou a noite
e paralizam os momentos mais singelos
do nascer do sol ao anoitecer.

É preciso andar por aí
deixando a cidade
penetrar por dentro de si.

E sem vergonha
sacar a caneta
a máquina fotográfica
o violão.

e arriscar o poema
a fotografia, a canção.

Esquecer do tempo
entre Boêmias no Rio Minho
saboreando os quitutes de nossa baía
e usar a grana do mercado
apenas para mais uma bela foto
em seus vitrais espelhados.

De dentro do carro,
do alto dos mirantes,
ou no meio da avenida,
eternizar a poesia.

Depois é preciso celebrar.
Compartilhar a beleza da cidade
com a humanidade apressada
pedindo calma sem dizer uma só palavra.

Calma para ser feliz.

Para admirar este monumento
feito de matas, montanhas, areias, mar
e gente herdeira da simpatia e do fazer sorrir
de nossos ancestrais tupi-guaranis.

(Rodolfo Muanis, 1º de março de 2007)

Este é dedicado ao nosso querido Rio de Janeiro e ao amigo Sérgio Fonseca que em seu www.papeldepao.com.br também rendeu belíssima homenagem à cidade.



28.2.08

poemas que dormem na estante XV

Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…

É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida…

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

Mario Quintana no livro Melhores Poemas da Editora Global

Este poema na verdade dorme mais na lembrança que na estante, pois eu perdi este meu livro do Quintana num Congresso de Poesia no sul do Brasil. Acontece que hoje sentindo saudades, eu lembrei deste poema, e ao lembrar uma frase, encontrei ele por aí.

26.2.08

Minerando o passado III - Recortes do antigo Algumas Pegadas

desumano ser humano

não conquistamos nada
com nossa fome de progresso
involuímos na evolução
vivendo em pura ilusão
destruindo o que precisamos
construindo o supérfluo
dez dias de paz em uma ilha
e ao voltar ao centro da cidade
da capital faminta e apressada
vejo olhos perdidos correndo
eu
estou em outro ritmo
em paz comigo
caminho lento
falo pouco e observo
jeito de bicho do mato
quieto parado
observando camuflado
como este tal de ser humano é engraçado
com sua ira de conquistador
segue devastando a própria espécie

(Rodolfo Muanis, Janeiro de 2004)
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Me lembro que este foi escrito depois de voltar de uns 15 dias acampado no meio do mato na Ilha Grande. Êita vontade de me desligar da tomada e voltar a sentir cheiro de mato.

24.2.08

Minerando o passado II - Recortes do antigo Algumas Pegadas

algumas pegadas

todo mundo tem o direito de ser feliz
viver os seus momentos de paixão
eternizá-los em poemas

partir, voltar e ficar

eternidade
não é um transcorrer de infinito tempo

eternidade
é transformar em poemas a beleza de cada momento

viver
é somar eternidades

podemos ocultá-las se quisermos
enganar pessoas semeando mentiras
mas eu prefiro plantar as verdades
não negando os raros momentos
em que saboriei a felicidade

um dia talvez eu pare para sempre em algum lugar
guardando no peito e nos livros sorrisos e lágrimas

jamais esquecidos

quem então se sentiu ferido
por alguma palavra dita
entenderá o motivo desta vontade de caminhar
deixando sempre por aí

algumas pegadas

(Rodolfo Muanis, 5 de Dezembro de 2003)

22.2.08

Minerando o passado I - Recortes do antigo Algumas Pegadas

Algumas Pegadas era o nome do meu antigo blog, que existiu de Novembro de 2003 até Maio de 2006. Ele pode até ter desaparecido, porém ainda tenho um backup dele no meu micro e hoje navegando por ele descobri tantos versos antigos interessantes que vou aos poucos peneirar as pérolas que tem lá e trazê-las para cá. O primeiro que mando é este, um poema de um grande amigo que ele escreveu após um show de quando lancei o Acaso (livro de poesias) em 2003.

Um dia poeta
Ronaldo Filho

O silêncio da noite me incomoda
A caneta me convida para escrever
As palavras do poeta, ainda frescas em minha mente
Misturam-se com versos que surgem a todo instante
As palavras inquietas do poeta me fazem pensar
As palavras inquietas do poeta me fazem escrever
Então escrevo
Escrevo tudo que se passa pela minha cabeça
Escrevo sobre a vontade de um dia ser poeta
Poeta itinerante no corpo
Poeta itinerante na mente
Forasteiro procurando palavras
Forasteiro procurando gente
O silêncio da noite ainda incomoda
As pás do ventilador cortando o ar soam como as palavras do poeta
As palavras que cortam barreiras, ultrapassam fronteiras, transcendem limites
Limites,
Barreiras,
Fronteiras
Tudo isso para o poeta é besteira
O que há de ser dito será dito
E ele o fará num sussurro ou num grito
Um sussurro de leve, para quem está perto
Um grito no escuro que atinge o incerto
A vida do poeta é um recital
Versos soltos pelas horas
Versos presos em estrofes
Redondilhas maiores e menores
Acompanhadas de rimas de todos os tipos
As metáforas do poeta refletem em palavras pensamentos geniosos
Serei eu um dia poeta?
Ou estou condenado a viver como simples mortal
Tentando entender as metáforas expurgadas pelo ídolo que alimenta minha fome de escrever Serei eu um dia poeta?
Será ele um grande profeta?
Profeta da vida
Visionário do mundo
Acima de todos
Vivendo sem rumo
Vivendo para si
Vivendo para os versos
Arquitentando em palavras
O seu manifesto
Serei eu um dia poeta?

(Novembro de 2003)
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Pois é Ronaldo, eu é que te pergunto se seremos um dia poetas?

19.2.08

poemas que dormem na estante XIV

Coração Polar

1.
Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.

Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastração
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.

Manuel Alegre pg. 191-192 do livro Poemas de Amor - Antologia de poesia portuguesa - Organização de Inês Pedrosa

8.2.08

Poesia de Bloco - parte VII - Final ou Inéditos X

Bateria – poema experimental sonoro nº 1

Pará pá pá. Tum tum.
Pará pá pá. Tum tum.
Pá pá pá. Pá pá pá. Pá pá pá pá pará pá pá.
Tum tum tum. Tum tum tum. Tum tum tum tum turu tum tum.
Pará pá pá...
Tum tum tic tum tum tic tum tum tic tum tum tic
Tum tum tic tum tum tic tum tum tic tum tum tic
Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá tá.
Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá tá
Tá tá tic tá tá tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá tá
Tá tá tic tá tá tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá tá
Tá tá tic tá tá tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá tá

Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.

Tum tum. Tá tá.
Tum tum. Tá tá.

Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá tá.
Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá tá.

Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.

Tum. Tum. Tum. Tum.
Tum. Tum. Tum. Tum. Tum. Tum.
Tum. Tum.Tum. Tum. Tum. Tum.
Tum. Tum. Tum.


(Rodolfo Muanis, Fevereiro de 2008)