Presença
É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!
Mario Quintana no livro Melhores Poemas da Editora Global
Este poema na verdade dorme mais na lembrança que na estante, pois eu perdi este meu livro do Quintana num Congresso de Poesia no sul do Brasil. Acontece que hoje sentindo saudades, eu lembrei deste poema, e ao lembrar uma frase, encontrei ele por aí.
28.2.08
26.2.08
Minerando o passado III - Recortes do antigo Algumas Pegadas
desumano ser humano
não conquistamos nada
com nossa fome de progresso
involuímos na evolução
vivendo em pura ilusão
destruindo o que precisamos
construindo o supérfluo
dez dias de paz em uma ilha
e ao voltar ao centro da cidade
da capital faminta e apressada
vejo olhos perdidos correndo
eu
estou em outro ritmo
em paz comigo
caminho lento
falo pouco e observo
jeito de bicho do mato
quieto parado
observando camuflado
como este tal de ser humano é engraçado
com sua ira de conquistador
segue devastando a própria espécie
(Rodolfo Muanis, Janeiro de 2004)
------------------------------------------
Me lembro que este foi escrito depois de voltar de uns 15 dias acampado no meio do mato na Ilha Grande. Êita vontade de me desligar da tomada e voltar a sentir cheiro de mato.
não conquistamos nada
com nossa fome de progresso
involuímos na evolução
vivendo em pura ilusão
destruindo o que precisamos
construindo o supérfluo
dez dias de paz em uma ilha
e ao voltar ao centro da cidade
da capital faminta e apressada
vejo olhos perdidos correndo
eu
estou em outro ritmo
em paz comigo
caminho lento
falo pouco e observo
jeito de bicho do mato
quieto parado
observando camuflado
como este tal de ser humano é engraçado
com sua ira de conquistador
segue devastando a própria espécie
(Rodolfo Muanis, Janeiro de 2004)
------------------------------------------
Me lembro que este foi escrito depois de voltar de uns 15 dias acampado no meio do mato na Ilha Grande. Êita vontade de me desligar da tomada e voltar a sentir cheiro de mato.
24.2.08
Minerando o passado II - Recortes do antigo Algumas Pegadas
algumas pegadas
todo mundo tem o direito de ser feliz
viver os seus momentos de paixão
eternizá-los em poemas
partir, voltar e ficar
eternidade
não é um transcorrer de infinito tempo
eternidade
é transformar em poemas a beleza de cada momento
viver
é somar eternidades
podemos ocultá-las se quisermos
enganar pessoas semeando mentiras
mas eu prefiro plantar as verdades
não negando os raros momentos
em que saboriei a felicidade
um dia talvez eu pare para sempre em algum lugar
guardando no peito e nos livros sorrisos e lágrimas
jamais esquecidos
quem então se sentiu ferido
por alguma palavra dita
entenderá o motivo desta vontade de caminhar
deixando sempre por aí
algumas pegadas
(Rodolfo Muanis, 5 de Dezembro de 2003)
todo mundo tem o direito de ser feliz
viver os seus momentos de paixão
eternizá-los em poemas
partir, voltar e ficar
eternidade
não é um transcorrer de infinito tempo
eternidade
é transformar em poemas a beleza de cada momento
viver
é somar eternidades
podemos ocultá-las se quisermos
enganar pessoas semeando mentiras
mas eu prefiro plantar as verdades
não negando os raros momentos
em que saboriei a felicidade
um dia talvez eu pare para sempre em algum lugar
guardando no peito e nos livros sorrisos e lágrimas
jamais esquecidos
quem então se sentiu ferido
por alguma palavra dita
entenderá o motivo desta vontade de caminhar
deixando sempre por aí
algumas pegadas
(Rodolfo Muanis, 5 de Dezembro de 2003)
22.2.08
Minerando o passado I - Recortes do antigo Algumas Pegadas
Algumas Pegadas era o nome do meu antigo blog, que existiu de Novembro de 2003 até Maio de 2006. Ele pode até ter desaparecido, porém ainda tenho um backup dele no meu micro e hoje navegando por ele descobri tantos versos antigos interessantes que vou aos poucos peneirar as pérolas que tem lá e trazê-las para cá. O primeiro que mando é este, um poema de um grande amigo que ele escreveu após um show de quando lancei o Acaso (livro de poesias) em 2003.
Um dia poeta
Ronaldo Filho
O silêncio da noite me incomoda
A caneta me convida para escrever
As palavras do poeta, ainda frescas em minha mente
Misturam-se com versos que surgem a todo instante
As palavras inquietas do poeta me fazem pensar
As palavras inquietas do poeta me fazem escrever
Então escrevo
Escrevo tudo que se passa pela minha cabeça
Escrevo sobre a vontade de um dia ser poeta
Poeta itinerante no corpo
Poeta itinerante na mente
Forasteiro procurando palavras
Forasteiro procurando gente
O silêncio da noite ainda incomoda
As pás do ventilador cortando o ar soam como as palavras do poeta
As palavras que cortam barreiras, ultrapassam fronteiras, transcendem limites
Limites,
Barreiras,
Fronteiras
Tudo isso para o poeta é besteira
O que há de ser dito será dito
E ele o fará num sussurro ou num grito
Um sussurro de leve, para quem está perto
Um grito no escuro que atinge o incerto
A vida do poeta é um recital
Versos soltos pelas horas
Versos presos em estrofes
Redondilhas maiores e menores
Acompanhadas de rimas de todos os tipos
As metáforas do poeta refletem em palavras pensamentos geniosos
Serei eu um dia poeta?
Ou estou condenado a viver como simples mortal
Tentando entender as metáforas expurgadas pelo ídolo que alimenta minha fome de escrever Serei eu um dia poeta?
Será ele um grande profeta?
Profeta da vida
Visionário do mundo
Acima de todos
Vivendo sem rumo
Vivendo para si
Vivendo para os versos
Arquitentando em palavras
O seu manifesto
Serei eu um dia poeta?
(Novembro de 2003)
-------------------------------
Pois é Ronaldo, eu é que te pergunto se seremos um dia poetas?
Um dia poeta
Ronaldo Filho
O silêncio da noite me incomoda
A caneta me convida para escrever
As palavras do poeta, ainda frescas em minha mente
Misturam-se com versos que surgem a todo instante
As palavras inquietas do poeta me fazem pensar
As palavras inquietas do poeta me fazem escrever
Então escrevo
Escrevo tudo que se passa pela minha cabeça
Escrevo sobre a vontade de um dia ser poeta
Poeta itinerante no corpo
Poeta itinerante na mente
Forasteiro procurando palavras
Forasteiro procurando gente
O silêncio da noite ainda incomoda
As pás do ventilador cortando o ar soam como as palavras do poeta
As palavras que cortam barreiras, ultrapassam fronteiras, transcendem limites
Limites,
Barreiras,
Fronteiras
Tudo isso para o poeta é besteira
O que há de ser dito será dito
E ele o fará num sussurro ou num grito
Um sussurro de leve, para quem está perto
Um grito no escuro que atinge o incerto
A vida do poeta é um recital
Versos soltos pelas horas
Versos presos em estrofes
Redondilhas maiores e menores
Acompanhadas de rimas de todos os tipos
As metáforas do poeta refletem em palavras pensamentos geniosos
Serei eu um dia poeta?
Ou estou condenado a viver como simples mortal
Tentando entender as metáforas expurgadas pelo ídolo que alimenta minha fome de escrever Serei eu um dia poeta?
Será ele um grande profeta?
Profeta da vida
Visionário do mundo
Acima de todos
Vivendo sem rumo
Vivendo para si
Vivendo para os versos
Arquitentando em palavras
O seu manifesto
Serei eu um dia poeta?
(Novembro de 2003)
-------------------------------
Pois é Ronaldo, eu é que te pergunto se seremos um dia poetas?
19.2.08
poemas que dormem na estante XIV
Coração Polar
1.
Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastração
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
Manuel Alegre pg. 191-192 do livro Poemas de Amor - Antologia de poesia portuguesa - Organização de Inês Pedrosa
1.
Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastração
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
Manuel Alegre pg. 191-192 do livro Poemas de Amor - Antologia de poesia portuguesa - Organização de Inês Pedrosa
8.2.08
Poesia de Bloco - parte VII - Final ou Inéditos X
Bateria – poema experimental sonoro nº 1
Pará pá pá. Tum tum.
Pará pá pá. Tum tum.
Pá pá pá. Pá pá pá. Pá pá pá pá pará pá pá.
Tum tum tum. Tum tum tum. Tum tum tum tum turu tum tum.
Pará pá pá...
Tum tum tic tum tum tic tum tum tic tum tum tic
Tum tum tic tum tum tic tum tum tic tum tum tic
Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá tá.
Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá tá
Tá tá tic tá tá tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá tá
Tá tá tic tá tá tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá tá
Tá tá tic tá tá tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá tá
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum. Tá tá.
Tum tum. Tá tá.
Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá tá.
Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum. Tum. Tum. Tum.
Tum. Tum. Tum. Tum. Tum. Tum.
Tum. Tum.Tum. Tum. Tum. Tum.
Tum. Tum. Tum.
(Rodolfo Muanis, Fevereiro de 2008)
Pará pá pá. Tum tum.
Pará pá pá. Tum tum.
Pá pá pá. Pá pá pá. Pá pá pá pá pará pá pá.
Tum tum tum. Tum tum tum. Tum tum tum tum turu tum tum.
Pará pá pá...
Tum tum tic tum tum tic tum tum tic tum tum tic
Tum tum tic tum tum tic tum tum tic tum tum tic
Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá tá.
Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá tá
Tá tá tic tá tá tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá tá
Tá tá tic tá tá tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá tá
Tá tá tic tá tá tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá ta tic tá tá
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum. Tá tá.
Tum tum. Tá tá.
Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá tá.
Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.
Tá tá tic tá tá tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum tum tic tá tá. Tic tum tum tic tá tá.
Tic tá tá tic tum tum. Tic tum tum tic tá tá.
Tum. Tum. Tum. Tum.
Tum. Tum. Tum. Tum. Tum. Tum.
Tum. Tum.Tum. Tum. Tum. Tum.
Tum. Tum. Tum.
(Rodolfo Muanis, Fevereiro de 2008)
6.2.08
Poesia de Bloco - parte VI
E o carnaval se despediu em grande estilo com o desfile do Vagalume que subiu a Rua Pacheco Leão no Jardim Botânico até o Horto. A bateria estava afinadinha e uma verdadeira multidão veio pular ao som de marchinhas, sambas antigos e é claro, o Samba do Vagalume 2008 que segue abaixo.
SEJA BEM-VINDO DOM JOÃO! 200 ANOS DE USO CAPIÃO
Autores: Alexandre, Anderson, Peri, Hugo, Marcelo Ranter e Beto
Eu sou o Vagalume
Esse jardim sempre foi meu habitat
Quem contou essa história
Que hoje faz duzentos anos
Tá querendo me enganar
(Para de caô)
Para de caô
Que a minha luz
Ofusca a sua ganância
Onde há verde há esperança
Se tempo é posto
Esse aqui é o meu lugar
Sacode a poeira
Que hoje é carnaval
Relaxa e goza
Vem brincar no meu quintal
SEJA BEM-VINDO DOM JOÃO! 200 ANOS DE USO CAPIÃO
Autores: Alexandre, Anderson, Peri, Hugo, Marcelo Ranter e Beto
Eu sou o Vagalume
Esse jardim sempre foi meu habitat
Quem contou essa história
Que hoje faz duzentos anos
Tá querendo me enganar
(Para de caô)
Para de caô
Que a minha luz
Ofusca a sua ganância
Onde há verde há esperança
Se tempo é posto
Esse aqui é o meu lugar
Sacode a poeira
Que hoje é carnaval
Relaxa e goza
Vem brincar no meu quintal
5.2.08
Poesia de Bloco - parte V
Ontem a boa foi o Bloco de Segunda que saiu da Cobal do Humaitá-Botafogo, descendo a Voluntários da Pátria, entrando na Martins Ferreira e voltando pela São Clemente. Muito bacana ver as duas principais ruas de Botafogo, tradicionalmente engarrafadas, invadidas pelos foliões. Carnaval é isso.
O Bloco contou com a bateria da Mocidade Independente Unidos do Santa Marta e mais os foliões agregados que chegaram com seu instrumento e foram recebidos com muita simpatia e se incorporaram a bateria. Meu tamborim estava por lá no tactitatactitatactitatacti....
O Bloco de Segunda é um dos principais responsáveis pelo processo de revitalização do Carnaval de Rua no Rio de Janeiro e este ano completou 20 anos com o Samba Enredo "Até parece que foi ontem".
Até Parece Que Foi Ontem - Bloco de Segunda 2008
Autores: Anderson Feife, Marco Gérard, Ricardo Mello e Tedinho Marino
Até parece que foi ontem
Já detonei o scud quem eu fui atrás
Sempre com um toque irreverente
Afinal se é de segunda é bom demais
A segunda intenção é a que fica
O que significa vou primeiro ali no bar
Pede mais uma pra depois
Da saideira na Cobal
O que eu quero
É ser feliz no carnaval
Bota fogo, vamos festejar!
Tomando um porre de alegria!
Um bloco de segunda vai passar
Incendeia bateria!
Vai e vem!
São 20 anos de amor pra dar
Em homenagem
Minha arara vai cantar
e convidar
Todo povo da cidade
Venham ter felicidade
E cair nesta folia
Sou de segunda
Corpo de vinte
Com o requinte
De viver na boemia
..........................................
A boa de hoje é o Bloco Vagalume que sobe a Pacheco Leão. A gente se vê ali atrás da Globo.
O Bloco contou com a bateria da Mocidade Independente Unidos do Santa Marta e mais os foliões agregados que chegaram com seu instrumento e foram recebidos com muita simpatia e se incorporaram a bateria. Meu tamborim estava por lá no tactitatactitatactitatacti....
O Bloco de Segunda é um dos principais responsáveis pelo processo de revitalização do Carnaval de Rua no Rio de Janeiro e este ano completou 20 anos com o Samba Enredo "Até parece que foi ontem".
Até Parece Que Foi Ontem - Bloco de Segunda 2008
Autores: Anderson Feife, Marco Gérard, Ricardo Mello e Tedinho Marino
Até parece que foi ontem
Já detonei o scud quem eu fui atrás
Sempre com um toque irreverente
Afinal se é de segunda é bom demais
A segunda intenção é a que fica
O que significa vou primeiro ali no bar
Pede mais uma pra depois
Da saideira na Cobal
O que eu quero
É ser feliz no carnaval
Bota fogo, vamos festejar!
Tomando um porre de alegria!
Um bloco de segunda vai passar
Incendeia bateria!
Vai e vem!
São 20 anos de amor pra dar
Em homenagem
Minha arara vai cantar
e convidar
Todo povo da cidade
Venham ter felicidade
E cair nesta folia
Sou de segunda
Corpo de vinte
Com o requinte
De viver na boemia
..........................................
A boa de hoje é o Bloco Vagalume que sobe a Pacheco Leão. A gente se vê ali atrás da Globo.
4.2.08
Poesia de Bloco - parte IV
Para saber toda a programação dos Blocos de Rua do Rio em 2008, vale visitar este site que descobri que me parece um dos mais completos.
http://www.samba-choro.com.br/carnaval/2008/pordata
Agora só fica em casa quem quer, pois é bem capaz de um bloco passar embaixo da sua janela.
Abraços!
http://www.samba-choro.com.br/carnaval/2008/pordata
Agora só fica em casa quem quer, pois é bem capaz de um bloco passar embaixo da sua janela.
Abraços!
3.2.08
Poesia de Bloco - parte III
Como já disse, ontem tamborizei no Barbas e hoje no Que Merda é Essa? ... seguem abaixo os sambas que alegraram os foliões ...
Bloco do Barbas - Samba 2 (2008)
Autores: Daniel Pereira, Jorgito Sapia e Cláudio Souza
No Barbas não tem apagão
Aqui não tem racionamento de alegria
Hoje, as águas vão rolar
Vem pro pipa mergulhar nessa folia
Meu bloco, pede passagem
Aproveita e pede vale refeição
Estamos no país das maravilhas
Da sacanagem e do samba do avião
"Tamo" na pista, tá grande a confusão
Tem turbinada, bicho feio e garotão
Quem tá pegado, barbas de molho
Fica ligado, que a patroa tá de olho
"Nelsinho ... abre logo esta torneira
Que a mulherada
Quer um banho de mangeuira
Libera o chope, pra galera se animar
Relaxa e goza pra esse bloco decolar
"Daquilo que o rei do petróleo ouviu das entranhas del Rei de Espanha" ou "Capitão Nascimento, relaxa que é Carnaval" - Bloco Que Merda é Essa? (2008)
Autores: Roni Volk, Gabriel da Mocidade, Bisqui da Fatinha e Mestre Nevada
"Tu é muleque! Muleque!"
É ACM esculachando o Belzebu!
O nosso samba, antes que reclames
Não é pra ti, ó Piovanni
Fraude no xixi é treta, Rebeca!
Romário escondendo a careca!
Mas se tomar o café do Dodó
Obina é melhor que o Eto'o
Boi-da-cara-preta na fazenda do Renan
Bota o Senado na cadeia ou no divã!
Água sanitária no leitinho das crianças
CPMF já virou lembrança!
?Por qué no te callas?
É que eu canto à beça!
A gente se resolve é na conversa!
Mas uma pergunta nunca falha:
Que merda é essa?!
...................................
Amanhã tem Bloco de Segunda e na terça Vagalume
Bloco do Barbas - Samba 2 (2008)
Autores: Daniel Pereira, Jorgito Sapia e Cláudio Souza
No Barbas não tem apagão
Aqui não tem racionamento de alegria
Hoje, as águas vão rolar
Vem pro pipa mergulhar nessa folia
Meu bloco, pede passagem
Aproveita e pede vale refeição
Estamos no país das maravilhas
Da sacanagem e do samba do avião
"Tamo" na pista, tá grande a confusão
Tem turbinada, bicho feio e garotão
Quem tá pegado, barbas de molho
Fica ligado, que a patroa tá de olho
"Nelsinho ... abre logo esta torneira
Que a mulherada
Quer um banho de mangeuira
Libera o chope, pra galera se animar
Relaxa e goza pra esse bloco decolar
"Daquilo que o rei do petróleo ouviu das entranhas del Rei de Espanha" ou "Capitão Nascimento, relaxa que é Carnaval" - Bloco Que Merda é Essa? (2008)
Autores: Roni Volk, Gabriel da Mocidade, Bisqui da Fatinha e Mestre Nevada
"Tu é muleque! Muleque!"
É ACM esculachando o Belzebu!
O nosso samba, antes que reclames
Não é pra ti, ó Piovanni
Fraude no xixi é treta, Rebeca!
Romário escondendo a careca!
Mas se tomar o café do Dodó
Obina é melhor que o Eto'o
Boi-da-cara-preta na fazenda do Renan
Bota o Senado na cadeia ou no divã!
Água sanitária no leitinho das crianças
CPMF já virou lembrança!
?Por qué no te callas?
É que eu canto à beça!
A gente se resolve é na conversa!
Mas uma pergunta nunca falha:
Que merda é essa?!
...................................
Amanhã tem Bloco de Segunda e na terça Vagalume
Poesia de Bloco - parte II
Detalhe à parte do Carnaval de Rua do Rio, o Carnaval dos Blocos, é a irreverência dos sambas enredos de cada um eles, uns brincam com a cidade, com a política, com os acontecimentos marcantes dos últimos tempos, ou até negam tudo isso, e brincam com a própria brincadeira.
Abaixo temos bons exemplos desta irreverência, primeiro o samba do Cutucanoatrás de 2008, depois um dos dois sambas que puxaram o Barbas este ano.
Nossa Samba é de Raiz
(Cutucanoatrás 2008)
http://www.cutucanoatras.com.br
Aipim mandioca é
Rabanete não dá no pé 2X
Do Leme sai o Cutucano Atrás
Cambaleando, indo no rumo do bar (do bar)
E a galera veio por que quis
Prestigiar nosso Samba de Raiz ÔôÔô
Quando enterrou
Sua semente que será tuberculô (culô)
A loira é morena, eu já sabia
Se fosse ela, a raiz eu pintaria
Sua batata tá assando
A gabiroba vou quebrar
Se a muda já é planta
Quem sabe um dia ela possa falar 2X
Fui à feira
Provar o nabo de Iaiá
Macaxeira
Fuma e bebe sem parar
Prateleiras
Do hortifruti vou me esbaldar
Cutucano, ninho do samba
Cenoura faz bem pra visão
Coelho míope não tem não
Da escola levei quase nada
De quatro, dois é raiz
Sou Cutucano, sou feliz
Bloco do Barbas - Samba 1 (2008)
Autores: Noca da Portela, Chico Salles, Roberto Medronho e Roberto Serrão
Vem comigo, quem quiser
Seja homem, ou mulher
A alegria é geral, é!
No barbas nesse carnaval
Aqui não tem apagão
Com o meu chope na mão
Estou ligado nesse avião
Eu trago a ginga no pé
E no meu samba a fé
Está em festa o meu coração
Carnaval, verão e liberdade
É um banho de felicidade
Um outro beijo, eu quero
Um outro aperto, eu dou
E nesse amasso, espero
Provar do seu sabor
Vem...
Abaixo temos bons exemplos desta irreverência, primeiro o samba do Cutucanoatrás de 2008, depois um dos dois sambas que puxaram o Barbas este ano.
Nossa Samba é de Raiz
(Cutucanoatrás 2008)
http://www.cutucanoatras.com.br
Aipim mandioca é
Rabanete não dá no pé 2X
Do Leme sai o Cutucano Atrás
Cambaleando, indo no rumo do bar (do bar)
E a galera veio por que quis
Prestigiar nosso Samba de Raiz ÔôÔô
Quando enterrou
Sua semente que será tuberculô (culô)
A loira é morena, eu já sabia
Se fosse ela, a raiz eu pintaria
Sua batata tá assando
A gabiroba vou quebrar
Se a muda já é planta
Quem sabe um dia ela possa falar 2X
Fui à feira
Provar o nabo de Iaiá
Macaxeira
Fuma e bebe sem parar
Prateleiras
Do hortifruti vou me esbaldar
Cutucano, ninho do samba
Cenoura faz bem pra visão
Coelho míope não tem não
Da escola levei quase nada
De quatro, dois é raiz
Sou Cutucano, sou feliz
Bloco do Barbas - Samba 1 (2008)
Autores: Noca da Portela, Chico Salles, Roberto Medronho e Roberto Serrão
Vem comigo, quem quiser
Seja homem, ou mulher
A alegria é geral, é!
No barbas nesse carnaval
Aqui não tem apagão
Com o meu chope na mão
Estou ligado nesse avião
Eu trago a ginga no pé
E no meu samba a fé
Está em festa o meu coração
Carnaval, verão e liberdade
É um banho de felicidade
Um outro beijo, eu quero
Um outro aperto, eu dou
E nesse amasso, espero
Provar do seu sabor
Vem...
Poesia de Bloco - parte I
Tudo (re)começou quando os cariocas perceberam que já não fazia sentido viajar no carnaval com o trânsito cada vez mais caótico nas estradas, principalmente para a Região dos Lagos, tradicional fuga da maioria das famílias nesta época; e que também era inviável ficar curtindo carnaval de turista na Apoteose pagando uma grana abusrda por uma fantasia. A solução foi literalmente colocar o bloco na rua.
E assim foram surgindo surdos, caixas, repiques, tamborins, compositores fazendo samba, amigos se reunindo em bares e esquinas. O povo foi ficando pelo Rio, criando um carnaval de rua democrático, sem exclusão, sem cordões etc. A coisa cresceu tanto que o Carnaval de Rua do Rio, ou o Carnaval dos Blocos como alguns preferem, hoje atrai gente do mundo inteiro e muitos brasileiros de outros estados que vêm participar com muita alegria desta festa gratuita que tem a alma e o espírito do carioca.
E como eu também não poderia ficar de fora desta festa, tenho batucado meu tamborim pelos blocos da cidade. No pré-carnaval abri os trabalhos completando a bateria do Cutucanoatrás no primeiro sábado antes do carnaval. Já neste sábado de carnaval toquei no Barbas em Botafogo, Domingo no Que Merda é Essa? em Ipanema, amanhã (segunda) toco no Bloco de Segunda na Cobal do Humaitá e na terça encerro os trabalhos tocando no Bloco Vagalume no Horto-Jardim Botânico que subirá a Rua Pacheco Leão.
Quem não gosta de samba, bom sujeito não é, já diz o ditado. Então apareça.
E assim foram surgindo surdos, caixas, repiques, tamborins, compositores fazendo samba, amigos se reunindo em bares e esquinas. O povo foi ficando pelo Rio, criando um carnaval de rua democrático, sem exclusão, sem cordões etc. A coisa cresceu tanto que o Carnaval de Rua do Rio, ou o Carnaval dos Blocos como alguns preferem, hoje atrai gente do mundo inteiro e muitos brasileiros de outros estados que vêm participar com muita alegria desta festa gratuita que tem a alma e o espírito do carioca.
E como eu também não poderia ficar de fora desta festa, tenho batucado meu tamborim pelos blocos da cidade. No pré-carnaval abri os trabalhos completando a bateria do Cutucanoatrás no primeiro sábado antes do carnaval. Já neste sábado de carnaval toquei no Barbas em Botafogo, Domingo no Que Merda é Essa? em Ipanema, amanhã (segunda) toco no Bloco de Segunda na Cobal do Humaitá e na terça encerro os trabalhos tocando no Bloco Vagalume no Horto-Jardim Botânico que subirá a Rua Pacheco Leão.
Quem não gosta de samba, bom sujeito não é, já diz o ditado. Então apareça.
1.2.08
poemas que dormem na estante XIII
Carnaval
Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!
Lá-se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!
Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!
Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
- Vinhos!... o vinho que é o meu fraco!...
Evoé Baco!
O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!...
Evoé Momo!
A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Venus!
Manuel Bandeira no livro Estrela da Vida Inteira pg. 79-81
E um feliz Carnaval para todos!
Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!
Lá-se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!
Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!
Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
- Vinhos!... o vinho que é o meu fraco!...
Evoé Baco!
O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!...
Evoé Momo!
A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Venus!
Manuel Bandeira no livro Estrela da Vida Inteira pg. 79-81
E um feliz Carnaval para todos!
19.1.08
Canções que tocam no meu rádio II
Bem, a idéia era nos post's todos de janeiro discutir por meio da poesia esta coisa do que é ou não poesia, o que define um poeta, os caminhos que podemos seguir etc.
Acontece que preciso urgentemente compartilhar com vocês (os raros que passam por aqui) Marina de la Riva, uma cantora filha de mãe brasileira e pai cubano. No seu cd de estréia ela consegue combinar o melhor da música dos dois países em 14 faixas belíssimas alternando sons brasileiros e cubanos, detalhe à parte é a parceria com Chico Buarque na canção que segue abaixo que é de arrepiar.
Ouví-la é imaginar aqueles olhares penetrantes e repletos de "destellos".
OJOS MALIGNOS
Las miradas de tus ojos son tan sutiles
que penetran en el alma de quien las mire
y como soles irrestibles son sus destellos
que no puede olvidarse mirarse en ellos,
que no puede olvidarse mirarse en ellos.
Y como sabes que tus miradas tienen hechizo,
miras con imprudencia y maleficio
no me mires a los ojos porque no quiero
que tu mirar penetrante me deje ciego,
que tu mirar penetrante me deje ciego.
Marina de la Riva no seu cd de estréia faixa 5.
Depois eu volto com a discussão sobre a poesia.
Acontece que preciso urgentemente compartilhar com vocês (os raros que passam por aqui) Marina de la Riva, uma cantora filha de mãe brasileira e pai cubano. No seu cd de estréia ela consegue combinar o melhor da música dos dois países em 14 faixas belíssimas alternando sons brasileiros e cubanos, detalhe à parte é a parceria com Chico Buarque na canção que segue abaixo que é de arrepiar.
Ouví-la é imaginar aqueles olhares penetrantes e repletos de "destellos".
OJOS MALIGNOS
Las miradas de tus ojos son tan sutiles
que penetran en el alma de quien las mire
y como soles irrestibles son sus destellos
que no puede olvidarse mirarse en ellos,
que no puede olvidarse mirarse en ellos.
Y como sabes que tus miradas tienen hechizo,
miras con imprudencia y maleficio
no me mires a los ojos porque no quiero
que tu mirar penetrante me deje ciego,
que tu mirar penetrante me deje ciego.
Marina de la Riva no seu cd de estréia faixa 5.
Depois eu volto com a discussão sobre a poesia.
poemas que dormem na estante XII
Poética
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. Diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Manuel Bandeira no livro Estrela da Vida Inteira, pg. 129, Editora Nova Fronteira.
Nova Poética
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.
Manuel Bandeira no livro Estrela da Vida Inteira, pg. 205, Editora Nova Fronteira.
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. Diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Manuel Bandeira no livro Estrela da Vida Inteira, pg. 129, Editora Nova Fronteira.
Nova Poética
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.
Manuel Bandeira no livro Estrela da Vida Inteira, pg. 205, Editora Nova Fronteira.
15.1.08
poemas que dormem na estante XI
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa no livro Poesias pg. 40, Editora L&PM Pocket
Isto
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
Fernando Pessoa no livro Poesias pg. 41, Editora L&PM Pocket
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa no livro Poesias pg. 40, Editora L&PM Pocket
Isto
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
Fernando Pessoa no livro Poesias pg. 41, Editora L&PM Pocket
13.1.08
poemas que dormem na estante X
Um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando juntos
Paulo Leminski no livro La Vie En Close, Editora Brasiliense, pg. 9
O que quer dizer
O que quer dizer, diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.
Paulo Leminski no livro Melhores Poemas, Editora Global, pg. 114
Razão de Ser
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
Paulo Leminski no livro Melhores Poemas, Editora Global, pg. 133
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando juntos
Paulo Leminski no livro La Vie En Close, Editora Brasiliense, pg. 9
O que quer dizer
O que quer dizer, diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.
Paulo Leminski no livro Melhores Poemas, Editora Global, pg. 114
Razão de Ser
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
Paulo Leminski no livro Melhores Poemas, Editora Global, pg. 133
11.1.08
poemas que dormem na estante IX
muitas doenças que as pessoas têm
são poemas presos
abcessos tumores nódulos pedras são palavras
calcificadas
poemas sem vazão
mesmo cravos pretos espinhas cabelo encravado
prisão de ventre poderia um dia ter sido poema
pessoas às vezes adoecem de gostar de palavra seca
palavra boa é a palavra líquida
escorrendo em estado de lágrima
Viviane Mosé no livro Pensamento Chão pg. 29, Editora 7 Letras.
são poemas presos
abcessos tumores nódulos pedras são palavras
calcificadas
poemas sem vazão
mesmo cravos pretos espinhas cabelo encravado
prisão de ventre poderia um dia ter sido poema
pessoas às vezes adoecem de gostar de palavra seca
palavra boa é a palavra líquida
escorrendo em estado de lágrima
Viviane Mosé no livro Pensamento Chão pg. 29, Editora 7 Letras.
9.1.08
Carta (de Mário Quintana)
Meu caro poeta,
Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos , aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócritos!
Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.
A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.
Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.
Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.
Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.
Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?
Mário Quintana no livro Melhores Poemas, Editora Global.
Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos , aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócritos!
Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.
A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.
Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.
Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.
Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.
Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?
Mário Quintana no livro Melhores Poemas, Editora Global.
7.1.08
poemas que dormem na estante VIII
Procura da Poesia
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em
desprezo.
Carlos Drummond de Andrade na voz de Paulo Autran no CD Reunião - O Brasil dizendo Drummond (faixa 38 cd 1)
É que estou aqui me perguntando sobre o que é ou não poesia, se sou realmente poeta, eu até hoje não sei se este poema era uma grande brincadeira irônica do Drummond (será que ele também duvidava ser poeta?) ou se ele estava realmente falando sério. Ele que cantou tantas dores, o amor, as cidades, as lembranças, e que nestes sempre encontrou a poesia e a eternizou em seus versos.
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em
desprezo.
Carlos Drummond de Andrade na voz de Paulo Autran no CD Reunião - O Brasil dizendo Drummond (faixa 38 cd 1)
É que estou aqui me perguntando sobre o que é ou não poesia, se sou realmente poeta, eu até hoje não sei se este poema era uma grande brincadeira irônica do Drummond (será que ele também duvidava ser poeta?) ou se ele estava realmente falando sério. Ele que cantou tantas dores, o amor, as cidades, as lembranças, e que nestes sempre encontrou a poesia e a eternizou em seus versos.
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