19.1.08

Canções que tocam no meu rádio II

Bem, a idéia era nos post's todos de janeiro discutir por meio da poesia esta coisa do que é ou não poesia, o que define um poeta, os caminhos que podemos seguir etc.

Acontece que preciso urgentemente compartilhar com vocês (os raros que passam por aqui) Marina de la Riva, uma cantora filha de mãe brasileira e pai cubano. No seu cd de estréia ela consegue combinar o melhor da música dos dois países em 14 faixas belíssimas alternando sons brasileiros e cubanos, detalhe à parte é a parceria com Chico Buarque na canção que segue abaixo que é de arrepiar.

Ouví-la é imaginar aqueles olhares penetrantes e repletos de "destellos".

OJOS MALIGNOS

Las miradas de tus ojos son tan sutiles
que penetran en el alma de quien las mire
y como soles irrestibles son sus destellos
que no puede olvidarse mirarse en ellos,
que no puede olvidarse mirarse en ellos.

Y como sabes que tus miradas tienen hechizo,
miras con imprudencia y maleficio
no me mires a los ojos porque no quiero
que tu mirar penetrante me deje ciego,
que tu mirar penetrante me deje ciego.

Marina de la Riva no seu cd de estréia faixa 5.

Depois eu volto com a discussão sobre a poesia.

poemas que dormem na estante XII

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. Diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira no livro Estrela da Vida Inteira, pg. 129, Editora Nova Fronteira.

Nova Poética

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.

Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:

É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.

Manuel Bandeira no livro Estrela da Vida Inteira, pg. 205, Editora Nova Fronteira.

15.1.08

poemas que dormem na estante XI

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fernando Pessoa no livro Poesias pg. 40, Editora L&PM Pocket

Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa no livro Poesias pg. 41, Editora L&PM Pocket

13.1.08

poemas que dormem na estante X

Um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando juntos


Paulo Leminski no livro La Vie En Close, Editora Brasiliense, pg. 9

O que quer dizer

O que quer dizer, diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.

Paulo Leminski no livro Melhores Poemas, Editora Global, pg. 114

Razão de Ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?


Paulo Leminski no livro Melhores Poemas, Editora Global, pg. 133

11.1.08

poemas que dormem na estante IX

muitas doenças que as pessoas têm
são poemas presos
abcessos tumores nódulos pedras são palavras
calcificadas
poemas sem vazão

mesmo cravos pretos espinhas cabelo encravado
prisão de ventre poderia um dia ter sido poema

pessoas às vezes adoecem de gostar de palavra seca
palavra boa é a palavra líquida
escorrendo em estado de lágrima

Viviane Mosé no livro Pensamento Chão pg. 29, Editora 7 Letras.

9.1.08

Carta (de Mário Quintana)

Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos , aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócritos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

Mário Quintana no livro Melhores Poemas, Editora Global.

7.1.08

poemas que dormem na estante VIII

Procura da Poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.


Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em

desprezo.

Carlos Drummond de Andrade na voz de Paulo Autran no CD Reunião - O Brasil dizendo Drummond (faixa 38 cd 1)

É que estou aqui me perguntando sobre o que é ou não poesia, se sou realmente poeta, eu até hoje não sei se este poema era uma grande brincadeira irônica do Drummond (será que ele também duvidava ser poeta?) ou se ele estava realmente falando sério. Ele que cantou tantas dores, o amor, as cidades, as lembranças, e que nestes sempre encontrou a poesia e a eternizou em seus versos.

6.1.08

inéditos IX

Talvez eu realmente
acelere as coisas aqui dentro
enquanto ela pedala os sentimentos.

Talvez eu também nem seja poeta.

Seja apenas um pintor de palavras
que precisa de uma musa bela
para pintar seus quadros.

Eu acredito que sinto.
Menos ou mais, não sei.
E talvez sentir assuste.

Será verdade cada palavra?
Ou me apaixono por estar apaixonado?
Trocando a musa o coração continua acelerado?

Olha,
eu creio que não.

O coração já parou muitas vezes
e outras tantas nem foi engrenado.

Mas é tudo culpa do ‘poeta’
este ser dependente da paixão
para que a caneta se mova no papel.

Mas faz sentido o teu questionamento
sobre o furacão, o fogo, o mar.

Uma tempestade leva tempo
para conseguir se formar.

Mas por favor,
não me leve a mal,
é que eu acho que já tem tempo
que o 'poeta' sofre por dentro
de um aquecimento global.

(Rodolfo Muanis - Janeiro de 2008)

31.12.07

poemas que dormem na estante VII

Ano-Novo

Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio

da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)

Ferreira Gullar no Livro Toda Poesia, 7.a edição, páginas 341-342

23.12.07

inéditos VIII

Ela e a Poesia

E a poesia que fora tão rara durante todo o ano reapareceu. Sorriu para mim numa mensagem. Trocamos livros e viramos novamente amigos. Ou melhor, sempre fomos amigos. Amigos não se fazem, os reconhecemos dizia Vinícius. Mas era mais que amizade. Havia fogo e desejo onde pousava o olhar. Ela que planta rosas em folhas em branco e sonha com planetas distantes onde mora o pequeno príncipe. Ela que sabe os segredos do deserto escritos nas asas de borboletas e lavadeiras. Ela que aquarela a beleza do mundo em traços e cores para o papel. Ela que num toque de fada, no girar de sua varinha, conserta o coração do poeta e faz a engrenagem novamente rodar. Ela que tem brilho nos olhos e paixão nos lábios. Ela que na delicadeza dos abraços, das mãos escorrendo rios pela pele, ferve por dentro o sentimento. Ela que sabe ser mãe, arriscando novas formas de amar, de cuidar, proteger dando liberdade para voar os pássaros engaiolados. Ela que tem um tom lindo quando é cor, delicioso quando é som. O sorriso, a fala, são vento soprando as brasas do meu peito. Ela que prosa minha poesia. Ela que é mar e cachoeira, pedal e motor. Ela que sentencia ser muito além das quatro as definições para o amor. Ela que agora é sonho, presente e alegria. Ela que me faz entender o porquê de ser poesia.

madrugada de 23 de dezembro de 2007

(Rodolfo Muanis - Dezembro de 2007)

21.12.07

inéditos VII

(à) e a vontade

a vontade
é de abrir a porta
da casa
do coração
da vida

para que possas entrar
e aos poucos
se sinta no aconchego do lar
se sinta bem à vontade
e para sempre queiras ficar

(Rodolfo Muanis - Dezembro de 2007)

20.12.07

Canções que tocam no meu violão I

Moça Bonita
(Geraldo Azevedo)

Moça bonita, seu corpo cheira
Ao botão da laranjeira
Eu também não sei se é
Imagine o desatino
É um cheiro de café
Ou é só cheiro feminino
Ou é só cheiro de mulher

Moça bonita, seu olho brilha
Qual estrela matutina
Eu também não sei se é
Imagina minha sina
É o brilho puro da fé
Ou é só brilho feminino
Ou é só brilho de mulher

Moça bonita, seu beijo pode
Me matar sem compaixão
Eu também não sei se é
Ou pura imaginação
Pra saber, você me dê
Esse beijo assassino
Nos seus braços de mulher

12.12.07

inéditos VI

Eu andei me apaixonando em silêncio

Primeiro foram só as cores e o tom
o vermelho dos cabelos
a delicadeza dos traços
o sentimento em cada gravura

Um dia eu compartilhei palavras
e o encanto mergulhou
no castanho dos olhos

Foi um terremoto que eu bem esperava
desabar num beijo

Hoje lendo poemas
eu acho que me perdi nos versos

Eu bem gostaria de estar errado

Mas me parece que o amor dela
é nostalgia
é outro número

E sendo assim é melhor
aceitar a impossibilidade
e (a)guardar toda poesia

Ah ... mas bem que eu queria
fazer da paixão em silêncio
alegria

(Rodolfo Muanis - Dezembro de 2007)

3.12.07

Canções que tocam no meu rádio I

Arte Longa Renato Rocha / Geraldo Amaral
Intérprete: Geraldo Azevedo

O mundo é grande para os nossos desencontros
a arte é longa vida breve fim
mas como pode o mar assim tão grande
caber num mundo tão pequeno assim

Meu violão não pesa muito
carrega tantas canções
fico pensando se um amor dos grandes
pode habitar pequenos corações

Meu sapato carregado de distâncias
o meu chapéu de sonhos sem fim
fico pensando que por mais que eu ande
eu não consigo me afastar de mim

CD - Geraldo Azevedo - ao vivo - Comigo - faixa 12

28.11.07

poemas que dormem na estante VI

# 38

eu respondi a ele
brother,

durante o terremoto da semana passada
eu estava me apaixonando

pelo meu futuro
e me apaixonando pelo futuro de todo mundo aqui

o mundo invisível apartentemente desabava
todos os nossos brinquedos partidos
as pedras delatoras entregando umas às outras
muita gente correu

eu estava me apaixonando durante o terremoto da semana passada

ou fosse apenas o delírio desse remanejamento oculto
que a gravidade da lua exerce
ou fosse a irresistível fração do próprio encalço desmentido
que delatava uma nova verdade agora

durante o terremoto da semana passada eu estava me apaixonando

Márcio Campos no livro Manutenção Planejada,

pág. 56, Editora 7 Letras.

Relembrei deste poema, pois a terra tremeu aqui dentro esta semana.

22.11.07

inéditos V

Apagando minha pegada ecológica

Estima-se que uma pessoa
produza anualmente
22 toneladas de CO2.

Estima-se também
que cinco árvores plantadas
neutralizam uma tonelada
de CO2 por ano.

Sendo assim, a cada ano
cada um deveria plantar
110 árvores para estar
em dia com o planeta.

E eu, aos 29 anos de idade
estou numa dívida de
3190 árvores com a Terra.

É pegar uma pá e sair por aí.

(Rodolfo Muanis - Novembro de 2007)
--------------------------------------------
Dados obtidos em http://www.carbononeutro.com.br/

17.11.07

DALCROZE, Emile Jacques. Rhythm, Music and Education. Londres, 1921.

As características do ritmo são a continuidade e a repetição. Toda manifestação motora, isolada no tempo, apresenta um aspecto emocional excepcional e momentâneo, que se perde no momento em que é repetido para formar parte de um todo contínuo evoluindo, ao mesmo tempo, no tempo e no espaço. Os dois elementos fundamentais do ritmo, o espaço e o tempo, são inseparáveis. Em certas artes, um ou outro desses elementos pode ser predominante: na música, e na arte suprema – a vida –, eles são indissolúveis e de igual importância.
(DALCROZE apud READ, 2001, p. 71)

no livro A Educação pela Arte de Herbert Read

15.11.07

inéditos IV

Sobre saber ser feliz por dentro

O dia era de chuva.
De feia e fria ventania.
De ruas molhadas, empoçadas e vazias.
De virar o guarda-chuva
dos raros que ousavam caminhar.

Dia bom pra ficar em casa
batendo tambor para o sol
lendo um bom livro.

Esperando o cinza passar
e o azul novamente pintar.

Mas mãe e filha brincavam
alegres e descontraídas
fazendo do dia regador
para a palavra vida.

O sol pode estar dentro de nós.

(Rodolfo Muanis - Novembro de 2007)

18.9.07

poemas que dormem na estante IV

Cantiga Para Não Morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Ferreira Gullar, no livro Toda Poesia, páginas 208-209.

12.7.07

inéditos III

sabe
eu queria que os poemas
acontecessem

mas
o que acontece
é que na hora H

eu mudo de rumo
e corto estradas
na direção errada

e agora fico aqui
sonhando-a bela
pelas ruelas de Parati

(Rodolfo Muanis - Julho de 2007)