sabe
eu queria que os poemas
acontecessem
mas
o que acontece
é que na hora H
eu mudo de rumo
e corto estradas
na direção errada
e agora fico aqui
sonhando-a bela
pelas ruelas de Parati
(Rodolfo Muanis - Julho de 2007)
12.7.07
11.6.07
inéditos II
Para Jacque num cair de tarde fria
Era uma cidade meio vila.
Ruas de areia, de pedra, algum asfalto.
Era um café, meio buteco, meio bar.
Uns quadros de artistas populares,
algumas antiguidades,
vinhos importados, nacionais,
boas cachaças, e cerveja em garrafa.
Um pão com lingüiça divino.
Era uma tarde daquelas frias
onde até a chuva que caía
durante todo o dia
já parecia meio cansada.
E ela entrou leve igual a brisa
que passa de fininho
pela fresta da porta
pelo buraco da janela
Sentou-se na mesa em frente
pediu um café, acendeu um cigarro
e eu (ou melhor meu coração) já era.
Não deu nem pra entender
explicar, talvez descrever...
Os cabelos negros,
na ponta meio vermelhos,
a pele nevada, um cóqui,
um vestido florido,
uma blusa de lã, havaianas
e um livro do Balzac.
Dois olhares.
Dois sorrisos.
Apaixonados.
(Rodolfo Muanis - Junho de 2007)
Era uma cidade meio vila.
Ruas de areia, de pedra, algum asfalto.
Era um café, meio buteco, meio bar.
Uns quadros de artistas populares,
algumas antiguidades,
vinhos importados, nacionais,
boas cachaças, e cerveja em garrafa.
Um pão com lingüiça divino.
Era uma tarde daquelas frias
onde até a chuva que caía
durante todo o dia
já parecia meio cansada.
E ela entrou leve igual a brisa
que passa de fininho
pela fresta da porta
pelo buraco da janela
Sentou-se na mesa em frente
pediu um café, acendeu um cigarro
e eu (ou melhor meu coração) já era.
Não deu nem pra entender
explicar, talvez descrever...
Os cabelos negros,
na ponta meio vermelhos,
a pele nevada, um cóqui,
um vestido florido,
uma blusa de lã, havaianas
e um livro do Balzac.
Dois olhares.
Dois sorrisos.
Apaixonados.
(Rodolfo Muanis - Junho de 2007)
6.2.07
inéditos I
tem a beleza
dos traços
e das cores
imprescindível
aos grandes amores
tem a delicadeza
de palavras
e olhares
está perto e distante
mas vibrante ao passar
as lindas madeixas ruivas
completam a bela escultura
é gostoso poder sonhar
(Rodolfo Muanis - Fevereiro de 2007)
dos traços
e das cores
imprescindível
aos grandes amores
tem a delicadeza
de palavras
e olhares
está perto e distante
mas vibrante ao passar
as lindas madeixas ruivas
completam a bela escultura
é gostoso poder sonhar
(Rodolfo Muanis - Fevereiro de 2007)
15.1.07
poemas que dormem na estante V
Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!
Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela... e sinto-a pura...
Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizaçòes da bruma
A amortalhar, a cintilar!
Eu vi o mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma...
Eu vi a estrela do pastor...
Vi a licorne alvinitente!...
Vi... vi o rastro do Senhor!...
E vi a Via-Láctea ardente...
Vi comunhões... capelas... véus...
Súbito... alucinadamente...
Vi carros triunfais... troféus...
Pérolas grandes como a lua...
Eu vi os céus! Eu vi os céus!
- Eu vi-a nua... toda nua!
Manuel Bandeira no livro Estrela da Vida Inteira
Poema Alumbramento, Editora Nova Fronteira
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!
Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela... e sinto-a pura...
Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizaçòes da bruma
A amortalhar, a cintilar!
Eu vi o mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma...
Eu vi a estrela do pastor...
Vi a licorne alvinitente!...
Vi... vi o rastro do Senhor!...
E vi a Via-Láctea ardente...
Vi comunhões... capelas... véus...
Súbito... alucinadamente...
Vi carros triunfais... troféus...
Pérolas grandes como a lua...
Eu vi os céus! Eu vi os céus!
- Eu vi-a nua... toda nua!
Manuel Bandeira no livro Estrela da Vida Inteira
Poema Alumbramento, Editora Nova Fronteira
22.12.06
poemas que dormem na estante IV
Mais um ano na estrada percorrida
Vem, como o astro matinal, que a adora
Molhar de puras lágrimas de aurora
A morna rosa escura e apetecida.
E da fragrante tepidez sonora
No recesso, como ávida ferida
Guardar o plasma múltiplo da vida
Que a faz materna e plácida, e agora
Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em nova rosas de carnal virtude
Para que o sonho viva da certeza
Para que o tempo da paixão não mude
Para que se una o verbo à natureza.
Vinícius de Moraes no livro Livro de Sonetos
Soneto da Rosa, Editora Record
Vem, como o astro matinal, que a adora
Molhar de puras lágrimas de aurora
A morna rosa escura e apetecida.
E da fragrante tepidez sonora
No recesso, como ávida ferida
Guardar o plasma múltiplo da vida
Que a faz materna e plácida, e agora
Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em nova rosas de carnal virtude
Para que o sonho viva da certeza
Para que o tempo da paixão não mude
Para que se una o verbo à natureza.
Vinícius de Moraes no livro Livro de Sonetos
Soneto da Rosa, Editora Record
20.12.06
poemas que dormem na estante III
(...)
Raramente tenho pensamentos próprios. Quero dizer
Pensamentos oriundos unicamente de minha pessoa.
Minha pessoa é muito mais fraca do que meus pés.
E minha pele e minhas mãos. Meu corpo sabe coisas
Que minha pessoa não. Então tenho pensamento corpo.
Às vezes meu pensamento se concentra em pessoas.
E não quer mais nada. São em geral não muito bons
Pensamentos.
A não ser quando é pensamento de uma boca.
A boca de uma pessoa é capaz de atrair meus mais belos
Pensamentos. O sexo e a voz. O pescoço.
Tenho mesmo fascínio por corpos.
Mãos e pele. Orelhas e odores.
Mas é a voz que mais em alguém me significa.
E atrai.
Palavras querem carne. Desejos querem nome.
(...)
Viviane Mosé no livro Desato
trecho do primeiro poema, Editora Record
Raramente tenho pensamentos próprios. Quero dizer
Pensamentos oriundos unicamente de minha pessoa.
Minha pessoa é muito mais fraca do que meus pés.
E minha pele e minhas mãos. Meu corpo sabe coisas
Que minha pessoa não. Então tenho pensamento corpo.
Às vezes meu pensamento se concentra em pessoas.
E não quer mais nada. São em geral não muito bons
Pensamentos.
A não ser quando é pensamento de uma boca.
A boca de uma pessoa é capaz de atrair meus mais belos
Pensamentos. O sexo e a voz. O pescoço.
Tenho mesmo fascínio por corpos.
Mãos e pele. Orelhas e odores.
Mas é a voz que mais em alguém me significa.
E atrai.
Palavras querem carne. Desejos querem nome.
(...)
Viviane Mosé no livro Desato
trecho do primeiro poema, Editora Record
19.12.06
poemas que dormem na estante II
(...)
Poesia, s.f.
Raiz de água larga no rosto da noite
Produto de uma pessoa inclinada a antro
Remanso que um riacho faz sob o caule da manhã
Espécie de réstia espantada que sai pelas frinchas de um homem
Designa também a armação de objetos lúdicos com
emprego de palavras imagens cores sons etc.
geralmente feitos por crianças pessoas esquisitas
loucos e bêbados
(...)
Boca, s.f.
Brasa verdejante que se usa em música
Lugar de um arroio haver sol
Espécie de orvalho cor de morango
Ave-nêspera!
Pequena abertura para o deserto
Água, s.f.
Da água é uma espécie de remanescente quem já
incorreu ou incorre em concha
Pessoas que ouvem com a boca no chão seus
rumores dormidos pertencem das águas
Se diz que no início eram somente elas
Depois é que veio o murmúrio dos corgos para dar
testemunho do nome de Deus
Poeta, s.m. e f.
Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu
Espécie de um vazadouro para contradições
Sabiá com trevas
Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos como
um rosto
Sol, s.m.
Quem tira a roupa de manhã e acende o mar
Quem assanha as formigas e os touros
Diz-se que:
se a mulher espiar o seu corpo num ribeiro
florescido de sol, sazona
Estar sol: o que a invenção de um verso contém
(...)
Manoel de Barros no livro Arranjos para Assobio
trechos do Glossário de transnominações em que não se explicam
algumas delas (nenhumas) ou menos, Editora Record
Poesia, s.f.
Raiz de água larga no rosto da noite
Produto de uma pessoa inclinada a antro
Remanso que um riacho faz sob o caule da manhã
Espécie de réstia espantada que sai pelas frinchas de um homem
Designa também a armação de objetos lúdicos com
emprego de palavras imagens cores sons etc.
geralmente feitos por crianças pessoas esquisitas
loucos e bêbados
(...)
Boca, s.f.
Brasa verdejante que se usa em música
Lugar de um arroio haver sol
Espécie de orvalho cor de morango
Ave-nêspera!
Pequena abertura para o deserto
Água, s.f.
Da água é uma espécie de remanescente quem já
incorreu ou incorre em concha
Pessoas que ouvem com a boca no chão seus
rumores dormidos pertencem das águas
Se diz que no início eram somente elas
Depois é que veio o murmúrio dos corgos para dar
testemunho do nome de Deus
Poeta, s.m. e f.
Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu
Espécie de um vazadouro para contradições
Sabiá com trevas
Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos como
um rosto
Sol, s.m.
Quem tira a roupa de manhã e acende o mar
Quem assanha as formigas e os touros
Diz-se que:
se a mulher espiar o seu corpo num ribeiro
florescido de sol, sazona
Estar sol: o que a invenção de um verso contém
(...)
Manoel de Barros no livro Arranjos para Assobio
trechos do Glossário de transnominações em que não se explicam
algumas delas (nenhumas) ou menos, Editora Record
poemas que dormem na estante I
Se não fosse porque têm cor-de-lua teus olhos,
de dia com argila, com trabalho, com fogo,
e aprisionada tens a agilidade do ar,
se não fosse porque uma semana és de âmbar.
se não fosse porque és o momento amarelo
em que o outono sobre pelas trepadeiras
e és ainda o pão que a lua fragrante
elabora passeando sua farinha pelo céu,
oh bem amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,
e tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso ver tudo:
vejo em tua vida todo o vivente.
Pablo Neruda no livro Cem Sonetos de Amor
Tradução de Carlos Nejar, L&PM Pocket
de dia com argila, com trabalho, com fogo,
e aprisionada tens a agilidade do ar,
se não fosse porque uma semana és de âmbar.
se não fosse porque és o momento amarelo
em que o outono sobre pelas trepadeiras
e és ainda o pão que a lua fragrante
elabora passeando sua farinha pelo céu,
oh bem amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,
e tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso ver tudo:
vejo em tua vida todo o vivente.
Pablo Neruda no livro Cem Sonetos de Amor
Tradução de Carlos Nejar, L&PM Pocket
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